Saúde Digestiva




Colangite Biliar Primária, uma doença silenciosa

A Colangite Biliar Primária (CBP) é uma doença crónica rara do foro imunológico que afeta primariamente o fígado. Não é contagiosa nem se pensa que seja provocada por algo em particular. Afeta de forma predominante mulheres, cerca de 90%, de meia idade, entre os 40 e os 60 anos. Estimamos que existam cerca de mil doentes em Portugal.

É uma doença autoimune, o que significa que é desencadeada por substâncias do próprio organismo que atacam o fígado, provocando inflamação. Colangite significa inflamação dos pequenos canais do fígado que transportam a bílis, que é um líquido orgânico complexo que é necessário para a digestão dos alimentos, entre outras funções. Biliar tem a ver com os tais “canalículos biliares”. Primária significa que não se conhece com precisão a causa que desencadeia essa doença.

A melhor forma de detetar a CBP, já que na grande maioria dos casos é uma doença silenciosa, é através de uma análise de sangue, simples, que se faz em qualquer laboratório e qualquer médico a pode solicitar. A análise mais importante é a fosfatase alcalina. Entendemos que todas as pessoas devem incluir as análises do fígado na avaliação de rotina (ALT, fosfatase alcalina e GGT).

Há uma outra análise, muito específica, que ajuda de modo muito decisivo ao diagnóstico: são os anticorpos antimitocondriais. Um aspeto muito importante é saber já se o doente tem cirrose. Se não existir cirrose pode existir a possibilidade de controlar a doença de forma a que a sobrevida seja igual à da população geral. Se já tiver cirrose, tal não pode acontecer e, por essa razão, o doente tem que ser vigiado toda a vida. Existem vários testes sanguíneos que podem permitir saber se existe cirrose ou não. Mas o mais fiável é uma técnica que se assemelha à ecografia chamada de Fibroscan® (elastografia hepática). Outro exame fundamental é a ecografia abdominal e por vezes é necessário recorrer a uma biópsia hepática para definição e caracterização mais completa da situação.

Na maioria dos casos a CBP é assintomática e silenciosa. O sintoma principal pode ser o cansaço inexplicável ou o prurido. Muitas doentes começam por ser consultadas por dermatologistas. O prurido por vezes é muito incapacitante, levando a feridas na pele, “sinais de coceira”.

As consequências mais graves podem surgir em cerca de 15-20% das doentes, com cirrose. Muitas vezes só na fase de cirrose é que surgem os sintomas: ascite (acumulação de líquido intraabdominal), encefalopatia (alterações mentais), vómitos com sangue por rotura das varizes do esófago, emagrecimento acentuado ou então cancro do fígado. Nalguns casos tem que se avançar para transplante hepático.

Os doentes com CBP constituem cerca de 10% dos transplantes hepáticos. É uma das doenças com melhor prognostico para transplante sendo a sobrevivência de 90% após 10 anos de transplante hepático.

Não tem cura, mas tem tratamento que pode ajudar a controlar a doença. No caso de o doente já ter cirrose terá de fazer vigilância através de uma ecografia de 6/6 meses, toda a vida. Existe algum risco, ainda que pequeno, de surgir cancro do fígado.

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